Comida & Emoção
Na infância, sentar-se à mesa é ser introduzido à cultura, às leis do convívio, ao limite e à partilha, aquilo que chamamos de comensalidade. Cozinhar e comer juntos é o que nos humaniza.
Quando transformamos a alimentação em uma questão de virtude, a relação com a comida deixa de ser uma experiência sensorial, cultural e afetiva, e se converte em uma prática de vigilância. Cada refeição passa a ser um teste de caráter. E aí a gente cria ideias performáticas.
É importante a gente lembrar que essa relação é construída e reconstruída o tempo todo. Podemos mudar nossos gostos, nossos hábitos, ou reforçá-los, encontrar neles formas de dialogar com o mundo. Acima de tudo, creio que o importante é criarmos uma intimidade com os alimentos.
O desejo por determinados alimentos pode ser estimulado, da mesma forma que outros bens de consumo, como roupas e eletrônicos. Por isso, o Morango do Amor parecia inescapável. Virou uma trend e logo foi fomentada pelo mercado. Todo mundo “tinha que” provar.
Entender como nos sentimos em relação aos alimentos é uma forma não só de nos conhecermos mais como, também, de reconfigurar nossa relação com eles.
Vamos começar dizendo logo que não há problema em pedir delivery. Muitas vezes, é uma quebra na rotina, a possibilidade de comer algo diferente, sem precisar sair de casa. No entanto, o uso excessivo pode ter algumas consequências, como a desconexão das pessoas com a comida.
A comida pode ser uma mobilizadora de sensações físicas e também emocionais e não comemos só para sobreviver: este é um ato também de prazer, de autoconhecimento e de expansão da nossa percepção do mundo, das culturas e das pessoas.
Respeitar a saciedade da criança é entendê-la como capaz de tomar decisões. Essa atitude ajuda não só a estabelecer uma relação melhor com a alimentação, como também com a vida, pois, a segurança de ser ouvido e acolhido e conseguir expressar seus sentimentos e vontades é preciosa.
Quando colocamos em perspectiva a importância da comida para o desenvolvimento das sociedades, podemos enxergar várias questões de forma holística, com a profundidade que merecem. Temos a oportunidade de avaliar nossas práticas, de construir outras possibilidades de mundo, de consumo, de experimentar sabores, reverenciar outras culturas, e reafirmar nossos laços com nossa própria ancestralidade.
A comida é uma forma de perpetuação. De tradições familiares, de culturas. Pode ser uma porta para conhecermos outras formas de experienciar o mundo. Os sabores podem ativar nossos sentidos, nos ajudar a entender a vida de outra forma.
Transtornos Alimentares
A solidão do transtorno alimentar não é a falta de pessoas ao redor. É a experiência de desterro. É o isolamento de estar em uma mesa com quem se ama, mas sentir-se num deserto.
A relação com o que nos nutre é um território sem mapa, lugar puramente subjetivo, onde a fome e a falta dançam no mesmo compasso.
O comportamento alimentar não é um defeito de fabricação; é uma resposta, uma tentativa, ainda que dolorosa, de equilíbrio existencial. É uma linguagem que o corpo usa quando as palavras não dão conta.
Pessoas com ortorexia têm uma relação com a comida marcada pela rigidez, medo e culpa. A preocupação com a alimentação saudável tem protagonismo na vida da pessoa, podendo levar à radicalização no comer, evitando determinados grupos alimentares.
Os transtornos alimentares têm relação direta com a saúde mental e afeta a relação da pessoa com a comida e o corpo, com consequências na autoestima e na autoimagem. Ao contrário do que o senso comum afirma, não é uma "escolha" e nem tem uma "cara".
Ao falarmos sobre transtornos alimentares em homens, nos deparamos com muita negação. Muitos homens não se sentem aptos a compartilhar seus problemas e, assim, não procuram ajuda.
No consultório, escuto muitos relatos de pessoas que já desconhecem uma vida sem os TAs, pois o adoecimento cria um ciclo no qual, muitas vezes, o indivíduo não se reconhece sem a doença.
Pessoas com transtornos alimentares convivem com sentimentos de culpa por conta de sua relação com a comida e costumam buscar esconder seus hábitos alimentares para serem socialmente aceitos.
Nossa vida afetiva, seja ela em um relacionamento amoroso, familiar, de amizade, de trabalho etc, é atravessada por vulnerabilidades e confiança, em maior ou menor medida. Então, imagine como é se sentir culpada por sua relação com a comida, com seu corpo, com a sua aparência?
Para além das suas manifestações físicas, os transtornos alimentares são resultado (e também intensificam) sofrimentos psicológicos.
Acolhimento & Autocompaixão
O diário alimentar na sessão nutricional nunca foi sobre contar calorias, fiscalizar pratos ou apontar erros. Ele é, antes de tudo, uma ferramenta profunda de autopercepção e conexão. É uma ponte direta entre a realidade do dia a dia e o espaço seguro do consultório.
Entendo que cuidar da sua alimentação é, antes de tudo, proteger o seu direito de viver em paz. Meu papel não é ditar regras ou apontar caminhos rígidos, mas caminhar ao seu lado para que você possa redescobrir a sabedoria do seu próprio corpo.
Muitas vezes, as pessoas chegam ao consultório sem saber o que querem fazer da vida, mas sabendo exatamente o que querem comer para anestesiar o dia. Isso acontece porque o hábito de se ignorar é tão forte que o paladar vira o último reduto de prazer que nos resta.
No transtorno da compulsão alimentar, o mundo deixa de ser um horizonte de possibilidades para se tornar um espaço de ameaça, onde o corpo não é mais morada, mas uma estrutura que apenas suporta o impacto.
Quando vivemos mediados pelo brilho constante do celular, o tempo se torna fragmentado. Deixamos de habitar as horas para apenas reagir a elas.
Mudar e experimentar novos modos de ser é parte da vida, desde que esse movimento nasça do encontro consigo. Quando vem de demandas externas, que transformam emoções em números e corpos em lucro, ele deixa de humanizar.
O silêncio, na experiência vivida, é presença. Ele não é ausência de algo, mas a manifestação de um modo de estar. Há silêncios que pesam, outros que acolhem; silêncios que vibram, que tocam o corpo, que revelam o que nenhuma palavra alcança.
Passamos a buscar uma perfeição que simplesmente não existe. E somos desestimulados a descobrir o que nos constitui, aquilo que faz de nós seres únicos.
Na nossa sociedade pautada pelo capitalismo e pela ideia de que “tempo é dinheiro”, desenvolvemos uma relação cada vez mais desconectada com a contemplação, com a pausa.
O corpo da mulher é alvo de ações punitivistas desde a infância. O ganho de peso, considerado pela indústria da dieta, da moda e outras quase como um pecado, costumava ser socialmente aceito apenas na gravidez. E, ainda assim, com restrições. Hoje, até na gestação o ganho de peso tem sido “vigiado”.


