Transtornos alimentares e vida afetiva: Medo de rejeição e sensação de vergonha costumam afligir pessoas vivendo com transtornos alimentares, afetando suas emoções

O discurso sobre transtornos alimentares é dominado por julgamento, preconceitos e até desumanização das pessoas. Costuma-se falar das doenças, dos sintomas, sem levar em consideração que, na raiz, estão indivíduos com suas trajetórias únicas, suas complexidades, dores e alegrias. E isso só faz aumentar a sensação de isolamento que essas pessoas costumam sentir.

Viver com transtornos alimentares é um processo que implica, além das questões físicas, muitas pautas emocionais. Pessoas com transtornos alimentares tendem a esconder a doença, por vergonha, medo de serem excluídas e julgadas, o que só aumenta o ciclo de sofrimento e dificulta a busca por ajuda.

Nossa vida afetiva, seja ela em um relacionamento amoroso, familiar, de amizade, de trabalho etc, é atravessada por vulnerabilidades e confiança, em maior ou menor medida. Então, imagine como é se sentir culpada por sua relação com a comida, com seu corpo, com a sua aparência? Pense o quão doloroso é para alguém com transtornos alimentares ter que ouvir frases punitivas e derrogatórias, como se fosse uma escolha estar adoecida e uma fraqueza não “melhorar”?

Como sociedade, precisamos tratar dessas questões com clareza, honestidade e cuidado. Pessoas com transtornos alimentares podem e devem viver no coletivo, amar, ser amadas, falar sobre suas questões, ter a oportunidade de se tratar sem serem julgadas por isso.

Por isso, no consultório, o tratamento passa por uma escuta profunda das vivências de cada paciente. Toda pessoa tem sua história e, ainda que ela esteja vivendo com transtorno alimentar, ela não é a doença. Não pode ser reduzida a ela.

Quando pararmos de tratar os transtornos alimentares como bichos papões, como algo muito distante de nós, entenderemos que estamos falando, antes de tudo, sobre pessoas. E que todos merecem acolhimento e o direito ao bem-estar consigo e em sociedade.