As comidas em nossas vidas
Você já parou para pensar em como a comida está presente em vários aspectos da nossa vida, para além da questão biológica? Ao pensarmos a história da alimentação, estamos pensando, também, a história das sociedades, seus hábitos, crenças. Estamos pensando a geografia (o que tem se embaralhado, com a globalização), a linguística (quantas expressões não são representadas por metáforas de comida?) e até questões espirituais (as religiões, oferendas, os mitos etc).
No livro "Comida e sociedade: uma história da alimentação", Henrique Carneiro afirma: "O que se come é tão importante quanto quando se come, onde se come, como se come e com quem se come. As mudanças dos hábitos alimentares e dos contextos que cercam tais hábitos é um tema intricado que envolve a correlação de inúmeros fatores (...) Além das questões políticas ou macroeconômicas, a alimentação revela a estrutura da vida cotidiana, do seu núcleo mais íntimo e mais compartilhado (...) A metáfora alimentar invade todas as esferas da vida."
Por isso, me preocupa perceber como estamos encarando a comida como obrigação - ou como também estamos esvaziando seus outros sentidos para além das necessidades biológicas. Pensar numa alimentação "saudável" não pode ser uma camisa de força pautada pelas pressões estéticas. Os hábitos alimentares podem ser distintos, respeitar as individualidades de cada lugar, ser fruto de conhecimentos compartilhados, construídos com respeito ao passado e também com desejo de criações futuras. Parte, também, do cuidado com a natureza, com o equilíbrio do planeta e seus habitantes, para além de nós humanos.
Quando colocamos em perspectiva a importância da comida para o desenvolvimento das sociedades, podemos enxergar várias questões de forma holística, com a profundidade que merecem. Temos a oportunidade de avaliar nossas práticas, de construir outras possibilidades de mundo, de consumo, de experimentar sabores, reverenciar outras culturas, e reafirmar nossos laços com nossa própria ancestralidade. A comida é política, é afetiva, é complexa. Que bom!