Sobre um vazio que parece não ter fim: transtornos alimentares refletem questões emocionais que costumam ser tratadas como menores. Não são.

Vazio, incompletude, culpa, ânsia. Esses são alguns dos sentimentos e sensações mais comuns para pessoas vivendo com transtornos alimentares (mas, sempre importante salientar, não restrito a elas). Muita gente ainda tem uma visão punitiva e preconceituosa em relação aos transtornos alimentares (TAs), como se eles fossem responsabilidade de quem está adoecido – tanto por desenvolvê-los quanto por não “ficar bem”.

Além de cruel e injusta, essa perspectiva desconsidera que os transtornos alimentares são resultado de questões complexas que se manifestam não só no corpo, mas, simultaneamente, no campo emocional. No consultório, escuto muitos relatos de pessoas que já desconhecem uma vida sem os TAs, pois o adoecimento cria um ciclo no qual, muitas vezes, o indivíduo não se reconhece sem a doença.

Ainda que seja doloroso (e é muito, em todas as esferas), os comportamentos adoecidos se tornam parte da rotina da pessoa e os sentimentos que envolvem a alimentação criam uma zona de reconhecimento. Algo como: “Dói, é ruim, me faz sofrer, mas eu sei o que esperar”. Afinal, também nos acostumamos com a dor e o sofrimento.

Por isso, antes de julgar ou de achar que alguém com TA “escolhe” estar neste lugar, é preciso lembrar que todos estão vivenciando suas dificuldades - e que o caminho para a busca por tratamento e para a recuperação passa pela humanização da pessoa. De que é possível estabelecer uma relação mais gentil consigo, entendendo que nossos vazios, nossas dificuldades, nos constituem, mas não nos definem.

Podemos acolher nossas dores, sem que elas pautem nossas ações. É uma jornada cheia de altos e baixos, como a vida. Por isso, lembramos que o tempo e o processo de cada um é único.