O luto que nos habita

Quando perdemos alguém que amamos, temos a impressão (ou a esperança) de que um dia o luto “vai passar”. É uma perspectiva que também nos é reforçada constantemente, como se aquele vazio, uma hora, fosse deixar de existir. Não posso falar por uma experiência geral, mas, para mim, este lugar, que é da falta, está sempre presente.

Ele é ressignificado, é verdade. Ganha novos contornos. A dor latente dá lugar à saudade. As memórias ficam menos turvas, aparecem em sua simplicidade. Pequenos gestos, situações banais, ganham novos significados. A gente lembra de cheiros, de sensações.

O luto passa a nos habitar. Acho que, de alguma forma, nos acompanha até o final. Mas aprendemos também a lidar com ele, da nossa forma. Alguns dias são mais fáceis, outros, mais complicados. É um processo que não tem regra que dê conta da complexidade. Para alguns, verbalizar é um caminho, para outros, pode ser a expressão através de meios como a escrita, a arte, a autorreflexão, entre outros.

Compartilhar o processo é muito importante até porque muita gente não consegue lidar bem com o luto do outro. Como se fosse um fardo, algo tão delicado que não se deve falar. Mas, muita gente está também aberta a ouvir. E que bom contar com a empatia, com o acolhimento e com a solidariedade de quem nos cerca. Pessoas próximas ou mesmo que sentem muito pela nossa perda.

Porque, no fundo, é um processo também solitário. Nos sentimos muitas vezes perdidos sem saber o que fazer com aquela dor, aquela saudade, aquele vazio. A gente vai encontrando formas de lidar, de entender, de ressignificar.

E como é importante e necessário falar sobre as nossas dores, sobre como o luto se mantém presente. Não podemos silenciar essas emoções. Não podemos circunscrever o luto a um “período” em que é socialmente aceitável senti-lo. A gente precisa reconhecer que a dor existe e precisa ser acolhida, independente do tempo.

Meu luto me habita. Outros também irão me compor. Lutos não são só por perdas de gente amada. Muitas perdas nos formam. Quais lutos te habitam?