O horror do etarismo e da pressão estética: Filme “A SUBSTÂNCIA” usa ficção para abordar os danos físicos e psicológicos causados pela indústria da beleza
As pressões estéticas promovidas e reforçadas por Hollywood permeiam o imaginário coletivo desde os primórdios do cinema. "A Substância", filme dirigido por Coralie Fargeat, em cartaz nos cinemas brasileiros, se debruça sobre essa questão de forma crua e incômoda. O filme faz parte do gênero body horror e tem cenas icônicas e muito perturbadoras – por isso, não recomendo para quem tem maior sensibilidade a esse tipo de conteúdo.
Uma das obras mais elogiadas do ano, tendo vencido a categoria de melhor roteiro no Festival de Cannes, o filme acompanha Elizabeth (magistralmente interpretada por Demi Moore, ela própria vítima de comentários maldosos sobre a idade e a aparência), uma atriz às vésperas de completar 50 anos que, por conta da idade, é demitida do programa de aulas fitness que apresenta. Ainda que esteja dentro dos padrões de magreza e seja uma mulher considerada belíssima, ela é considerada velha e, por isso, vai ser substituída por alguém mais jovem.
Abalada com a notícia, ela recebe a misteriosa oferta de experimentar "A Substância", misterioso líquido que promete uma versão "melhor e mais jovem" dela mesma. Do processo, nasce "Sue", seu "eu" mais jovem, com o qual precisa revezar a vida a cada sete dias. O equilíbrio entre as duas vivências vai, rapidamente, se esfacelando, escancarando a exclusão de Elizabeth e sua deterioração física e emocional diante de Sue – que é ela e, ao mesmo tempo, uma outra.
Com visual impactante, o filme mostra como somos afetados por uma cultura que valoriza a juventude, descarta a velhice e que se alimenta da constante insegurança em relação à própria imagem, como se fosse preciso haver um vazio constante, jamais preenchido. O espiral no qual Elizabeth/Sue se lançam é angustiante.
Repito: o filme tem efeitos epeciais apurados e não é recomendado para pessoas com sensibilidade a filmes de terror. Mas, é também um lembrete: vivemos um horror constante, nos submetendo a tratamentos diversos, estranhos, duvidáveis, em nome de pressões constantes, que nos afastam de nós mesmos.